LITERATURA BRASILEIRA
Textos literrios em meio eletrnico
A Mgoa do infeliz Cosme, de Machado de Assis


Edio referncia: http://www2.uol.com.br/machadodeassis 
Publicado originalmente em Jornal das Famlias 1875 

I 

Imensa e profunda foi a mgoa do infeliz Cosme. Depois de trs anos de no interrompida 
ventura, faleceu-lhe a mulher, ainda na flor da idade, e no esplendor das graas com que 
a dotara a natureza. Uma rpida molstia a arrebatou aos carinhos do esposo e  
admirao de quantos tiveram a honra e o prazer de praticar com ela. Quinze dias apenas 
esteve de cama; mas foram quinze sculos para o infeliz Cosme. Por cmulo de 
desgraas, expirou longe dos olhos dele; Cosme sara para ir buscar a soluo de um 
negcio; quando chegou  casa achou um cadver. 
Dizer a aflio em que este acontecimento lanou o infeliz Cosme pediria outra pena que 
no a minha. Cosme chorou logo no primeiro dia todas as suas lgrimas; no dia seguinte 
tinha os olhos exaustos e secos. Os seus numerosos amigos contemplavam com tristeza 

o rosto do infeliz e ao lanar a p de terra sobre o caixo j depositado no fundo da cova, 
mais de um recordou os dias que passara ao p dos dois esposos, to queridos um do 
outro, to venerados e amados dos seus ntimos. 
Cosme no se limitou ao encerramento usual dos sete dias. A dor no  costume, dizia 
ele aos que o iam visitar; sairei daqui quando puder arrastar o resto dos meus dias. Ali 
ficou durante seis semanas, sem ver a rua nem o cu. Os seus empregados iam prestarlhe contas, a que ele, com incrvel esforo, prestava religiosa ateno. Cortava o corao 
ver aquele homem ferido no que havia de mais caro para ele, discutir s vezes um erro de 
soma, uma troca de algarismos. Uma lgrima s vezes vinha interromper a operao. O 
vivo lutava com o homem do dever. 
Ao cabo de seis semanas resolveu sair  rua o infeliz Cosme. 
-No estou curado, dizia ele a um compadre; mas  preciso obedecer s necessidades 
da vida. 
-Infeliz! exclamou o compadre apertando-o nos braos. 
II 

Na vspera de sair foi visit-lo um moo de vinte e oito anos, que podia ser seu filho, 
porque o infeliz Cosme contava quarenta e oito. Cosme conhecera o pai de Oliveira e fora 
seu companheiro nos bons tempos da mocidade. Oliveira afeioou-se ao amigo de seu 
pai, e freqentava-lhe a casa ainda antes do casamento. 

-Sabe que vou casar? disse um dia Cosme a Oliveira. 
-Sim? Com quem? 
-Adivinhe. 
-No posso. 
-Com D. Carlota. 
-Aquela moa a quem me apresentou ontem no teatro? 
-Justo. 
-Dou-lhe meus parabns. 
Cosme arregalou os olhos de contente. 
-No lhe parece que fao boa escolha? 
-Uma excelente moa: formosa, rica... 
-Um anjo! 

Oliveira puxou duas fumaas do charuto e observou: 

-Mas como arranjou isso? Nunca me falou em tal. Verdade  que sempre o conheci
discreto; e meu pai costumava dizer que o senhor era uma urna inviolvel.
-Por que motivo andaria eu a bater com a lngua nos dentes?
-Tem razo...
-Este casamento h de dar que falar, porque eu j estou um pouco maduro.
-Oh! no parece.
-Mas estou; c tenho j os meus quarenta e cinco. No os mostro, bem sei; apuro-me no
vestir, e no tenho um fio de cabelo branco.
-E conta ainda um mrito mais:  experiente.
-Dois mritos: experiente e sossegado. No estou na idade de andar correndo a via-
sacra e dando desgosto  famlia, que  o defeito dos rapazes. Parece-lhe ento que
seremos felizes?
-Como dois eleitos do cu.
Cosme, que ainda no era o infeliz Cosme, esfregou as mos de contentamento e
manifestou a opinio de que o seu jovem amigo era um esprito sensato e observador.
Efetuou-se o casamento com assistncia de Oliveira, que, apesar da mudana de estado
do amigo de seu pai, no deixou de lhe freqentar a casa. De todos os que l iam era o
que tinha maior intimidade. Suas boas qualidades lhe davam jus  estima e venerao.
Desgraadamente era moo e Carlota era bela. Oliveira, ao cabo de alguns meses,
sentiu-se loucamente apaixonado. Era honrado e viu a gravidade da situao. Quis evitar
o desastre; deixou de freqentar a casa de Cosme. Cerca de cinqenta dias deixou de l
ir, at que o amigo o encontrou e  viva fora o levou a jantar.
A paixo no estava morta nem caminhava para isso; a vista da bela Carlota no fez mais
do que converter em incndio o que j era braseiro.
Eu desisto de contar as lutas em que andou o corao de Oliveira durante todo o tempo
que viveu a esposa de Cosme. Evitou ele manifestar nunca  formosa dama o que sentia
por ela; um dia, porm, to patente era o seu amor, que ela claramente lho percebeu.
Uma leve sombra de vaidade fez com que Carlota no descobrisse com maus olhos o
amor que inspirara ao rapaz. No tardou, porm, que a reflexo e o sentimento da honra
lhe mostrassem todo o perigo daquela situao. Carlota mostrou-se severa com ele, e
este recurso fez ainda mais aumentar as disposies respeitosas em que se achava
Oliveira.
-Tanto melhor! disse ele consigo.
A exclamao de Oliveira queria dizer duas coisas. Era, primeiramente, uma homenagem
de respeito  amada do seu corao. Era tambm uma esperana. Oliveira nutria a doce
esperana de que Carlota enviuvasse mais cedo do que supunha o marido, e nesse caso
podia ele apresentar a sua candidatura, com certeza de que recebia uma mulher
provadamente virtuosa.
Os acontecimentos dissiparam todos esse castelos; Carlota foi a primeira a sair deste
mundo, e a dor de Oliveira no foi menor que a dor do infeliz Cosme. Nem teve nimo de
ir ao enterro; foi  missa, e a muito custo pde reter as lgrimas.
Agora que seis semanas haviam decorrido depois da terrvel catstrofe, Oliveira procurou
o infeliz vivo na vspera do dia em que este saa  rua, como eu tive a honra de lhes
dizer.
III 

Cosme estava assentado diante da escrivaninha examinando melancolicamente alguns 
papis. Oliveira assomou  porta do gabinete. O infeliz vivo voltou o rosto e encontrou os 
olhos do amigo. Nenhum deles se moveu; a sombra da moa parecia ter surgido entre 
ambos. Enfim, o infeliz Cosme levantou-se e atirou-se aos braos do amigo. 
No se sabe bem o tempo que eles gastaram nesta magoada e saudosa atitude. Quando 
se desprenderam, Oliveira enxugou furtivamente uma lgrima; Cosme levou o leno aos 


olhos.
A princpio, evitaram falar da moa; mas o corao trouxe naturalmente aquele assunto
de conversa.
Cosme era incansvel nos louvores que tecia  finada esposa, cuja perda, dizia ele, no
era s irreparvel, havia de ser-lhe mortal. Oliveira procurava dar-lhe algumas
consolaes.


-Oh! exclamou o infeliz Cosme, para mim no h consolaes. Isto agora j no  viver, 
vegetar,  arrastar o corpo e a alma sobre a terra, at o dia em que Deus se compadea
de ambos. A dor que eu sinto c dentro  um germe da morte; sinto que no posso durar
muito tempo. Tanto melhor, meu caro Oliveira, mais depressa irei ter com ela.
Estou muito longe de lhe censurar esse sentimento, observou Oliveira procurando
disfarar a comoo. No conheci eu durante trs anos o que valia aquela alma?
-Nunca a houve mais anglica!
Cosme proferiu estas palavras levantando as mos para o teto, com uma expresso
mesclada de admirao e saudade, que abalaria as prprias cadeiras se tivessem
ouvidos. Oliveira concordou plenamente com o juzo do amigo.
-Era efetivamente um anjo, disse ele. Nenhuma mulher teve ainda tantas qualidades
juntas.
-Oh! meu bom amigo! Se soubesse que satisfao me est dando! Neste mundo de
interesses e vaidades, ainda h um corao puro, que sabe apreciar os dotes do cu.
Carlota era isso mesmo que o senhor est dizendo. Era ainda muito mais. A alma dela
ningum a conheceu nunca como eu. Que bondade! que ternura! que graa infantil! Alm
destes dons, que severidade! que singeleza! E, enfim, se passarmos, melhor direi, se
descermos a outra ordem de virtudes, que amor da ordem! que amor do trabalho! que
economia!
O infeliz vivo levou as mos aos olhos e ficou algum tempo acabrunhado ao peso de to
doces e amargas recordaes. Oliveira tambm estava comovido. O que ainda mais o
entristecia foi reparar que estava sentado na mesma cadeira em que Carlota costumava
passar as noites, a conversar com ele e o marido. Cosme levantou enfim a cabea.
-Perdoe-me, disse ele, estas fraquezas. So naturais. Eu seria um monstro se no
chorasse aquele anjo.
Chorar, naquela ocasio, era uma figura potica. O infeliz Cosme tinha os olhos secos.
-Nem j lgrimas tenho, continuou ele traduzindo em prosa o que acabava de dizer. As
lgrimas ao menos so um desabafo; mas este sentir interior, esta tempestade que no
rompe, mas que se concentra no corao, isto  pior que tudo.
-Tem razo, disse Oliveira, deve ser assim, e  natural que seja. No me tenha
entretanto por um consolador banal;  necessrio, no digo esquec-la, que seria
impossvel, mas voltar-se para a vida, que  uma necessidade.
Cosme esteve algum tempo calado.
-J tenho dito isso mesmo, respondeu ele, e sinto que assim acontecer mais cedo ou
mais tarde. Vida  que nunca hei de ter; daqui at a morte  apenas um vegetar. Mas,
enfim, isso mesmo  preciso...
Oliveira continuou a dizer-lhe algumas palavras de consolao, que o infeliz Cosme ouvia
distrado, com os olhos ora no teto, ora nos papis que tinha diante de si. Oliveira,
entretanto, precisava tambm de quem o consolasse, e no pde falar muito tempo sem
comover-se a si prprio. Seguiu-se um curto silncio, que o infeliz Cosme foi o primeiro a
romper.
-Sou rico, disse ele, ou antes, corre que o sou. Mas de que me servem os bens? A
riqueza no me substitui o tesouro que perdi. Mais ainda; essa riqueza ainda aumenta a
minha saudade, porque parte dela foi Carlota que ma trouxe. Bem sabe que eu a
receberia com um vestido de chita...
-Ora! disse Oliveira levantando os ombros.
-Bem sei que me faz justia; mas h invejosos ou caluniadores para quem estes
sentimentos so apenas mscaras de interesse. Lastimo essas almas. Esses coraes

so podres.
Oliveira concordou plenamente com a opinio do infeliz Cosme.
O vivo continuou:


-Demais, ainda que eu fosse um homem de interesse, a minha boa Carlota devia tornarme um amigo. Nunca vi mais nobre desinteresse que o dela. Alguns dias antes de morrer 
quis fazer testamento. Baldei todos os esforos para impedi-la; ela foi mais forte do que 
eu. Tive de ceder. Nesse testamento constituiu-me ela seu herdeiro universal. Ah! eu 
daria toda a herana por uma semana mais de existncia para ela. Uma semana? que 
digo? por uma hora mais! 
IV 

Os dois amigos foram interrompidos por um escravo que trazia uma carta. Cosme leu a 
carta e perguntou: 

-Esse homem est a?
-Est na sala.
-L vou.
O escravo saiu.
-Veja, senhor! No se pode durante uma hora falar ao corao; a prosa da vida a vem.
Permite-me?
-Pois no.
Cosme saiu e foi  sala; Oliveira ficou s no gabinete, onde tudo lhe recordava os tempos
de outrora. Estava ainda ao p da escrivaninha o banquinho onde Carlota pousava os
ps; Oliveira teve mpetos de beij-lo. Tudo ali, at as gravuras de que Carlota gostava
tanto, tudo ali parecia ter impressa a viva imagem da moa.
No meio das reflexes foi interrompido pelo infeliz Cosme.
-Perdo! disse este, venho buscar uma coisa; volto j.
Cosme abriu uma gaveta, tirou de dentro algumas caixas de jias, e saiu. Oliveira teve
curiosidade de saber para que fim o vivo levava as jias, mas ele no lhe deu tempo de
o interrogar.
Nem era preciso.
O prprio Cosme veio dizer-lho cerca de dez minutos depois.
-Meu amigo, disse ele, isto  insuportvel.
-Que h?
-L se foi parte da minha existncia. As jias de minha mulher...
No pde acabar; caiu sobre uma cadeira e ps a cabea nas mos.
Oliveira respeitou aquela exploso de dor, que ele no compreendia. Ao cabo de algum
tempo, Cosme levantou a cabea; tinha os olhos vermelhos. Esteve ainda alguns
segundos calado. Enfim:
-O homem a quem fui falar veio buscar as jias de minha mulher. Obedeo a uma
expressa vontade dela.
-Vontade dela?
-Um capricho, talvez, mas um capricho digno do seu corao. Carlota pediu-me que no
me tornasse a casar. Era intil o pedido, porque depois de ter perdido aquele anjo,  claro
que eu no tornaria ligar a minha existncia  de nenhuma outra mulher.
-Oh! decerto!
-Todavia, exigiu que lho jurasse. Jurei. No se contentou com isso.
-No?
-"Tu no sabes o que pode acontecer no futuro, disse-me ela; quem sabe se o destino
no te obrigar a esquecer este juramento que me fizeste? Exijo uma coisa mais, exijo
que vendas as minhas jias, a fim de que outra mulher no as ponha sobre si".
O infeliz Cosme terminou esta revelao com um suspiro. Oliveira estava interiormente
dominado por um sentimento de inveja. No era inveja somente, eram tambm cimes.
Pobre Oliveira! era completa a sua desgraa! A mulher que ele amava tanto se desfazia

em provas de amor com o marido na hora solene em que se despedia da terra. 
Estas reflexes fazia o triste namorado, enquanto o infeliz Cosme, todo entregue  doce 
imagem da esposa extinta, interrompia o silncio com suspiros que vinham diretamente 
do corao. 

-Vendi as jias, disse Cosme depois de algum tempo de meditao, e o senhor pode
avaliar a mgoa com que me desfiz delas. Bem v que foi ainda uma prova de amor que
dei  minha Carlota. Todavia, exigi profundo silncio do joalheiro e o mesmo exijo do
senhor... Sabe por qu?
Oliveira fez sinal que no entendia.
- porque eu no vou contar a todos a cena que se passou unicamente entre mim e ela.
Achariam ridculo, alguns nem lhe dariam crdito. De maneira, que eu no poderia
escapar  reputao de avaro e mau homem, que nem uma doce lembrana sabia
guardar da mulher que o amou.
-Tem razo.
O infeliz Cosme tirou melancolicamente o leno da algibeira, assoou-se e prosseguiu:
-Mas teria razo o mundo, ainda quando aquele anjo me no houvesse pedido o
sacrifcio que acabo de fazer? Vale mais uma lembrana representada por pedras de
valor do que a lembrana representada na saudade que fica no corao? Com franqueza,
eu detesto esse materialismo, esse aniquilamento da alma, em proveito de coisas
passageiras e estreis. Bem fraco deve ser o amor que precisa de objetos palpveis e
sobretudo valiosos, para no ser esquecido. A verdadeira jia, meu amigo,  o corao.
Oliveira respondeu a esta teoria do infeliz Cosme com um desses gestos que no afirmam
nem negam, e que exprimem o estado duvidoso do esprito. Efetivamente, o mancebo
estava perplexo ao ouvir as palavras do vivo. Era claro para ele que a saudade existe no
corao, sem necessidade de recordaes externas, mas no admitia de todo que o uso
de guardar alguma lembrana das pessoas mortas fosse um materialismo, como dizia o
infeliz Cosme.
Estas mesmas dvidas exps ele ao amigo, depois de alguns minutos de silncio, e foram
ouvidas com um sorriso benvolo da parte deste.
-O que o senhor diz  exato, observou Cosme, se atendermos unicamente  razo; mas
to entranhado se acha o sentimento no corao do homem, que eu vendi tudo, menos
uma coisa. Quis que, ao menos isso, me ficasse at a morte; to certo  que o corao
tem seus motivos e argumentos especiais...
-Oh! sem dvida! disse Oliveira. Metade das coisas deste mundo so regidas pelo
sentimento. Em vo procuramos furtar-nos a ele... Ele  mais forte do que os nossos
dbeis raciocnios.
Cosme fez uma leve inclinao de cabea, e ia metendo a mo na algibeira do palet,
para tirar a jia aludida, quando um escravo veio anunciar que o jantar estava na mesa.
-Vamos jantar, disse Cosme;  mesa lhe mostrarei o que .
V 

Saram do gabinete para a sala de jantar. A sala de jantar ainda mais entristeceu o amigo 
do infeliz Cosme. Tantas vezes jantara ali em companhia dela, tantas contemplara ali os 
seus olhos, tantas ouvira as suas palavras! 
O jantar era farto, como de costume. Cosme deixou-se cair numa cadeira, enquanto 
Oliveira tomava assento ao p dele. Um criado serviu a sopa, que o infeliz vivo comeu 
apressadamente, no sem observar ao amigo, que era a primeira vez que realmente tinha 
vontade de comer. 
No era difcil de crer que assim devia de ser aps seis semanas de quase total 
abstinncia, ao ver a celeridade com que o infeliz Cosme varria os pratos que lhe punham 
diante dele. 
Terminada a sobremesa, Cosme ordenou que o caf fosse levado ao gabinete, onde 
Oliveira teve ocasio de ver a jia que a saudade de Cosme impedira de ser vendida 


como as outras.
Era um alfinete de esmeralda perfeito; mas a perfeio da obra no era o que lhe dava
todo o valor, como observou o infeliz Cosme.
Oliveira no pde reter um grito de surpresa.


-O que ? perguntou o dono da casa. 
-Nada. 
-Nada? 
-Uma lembrana. 
-Diga o que . 
-Esse alfinete quis eu comprar, no ano passado, em casa de Farani. No foi l que o 
comprou? 
-Foi. 
-Que singularidade! 
-Singularidade? 
-Sim; eu quis compr-lo justamente para dar  minha irm no dia em que fazia anos. 
Disseram-me que estava vendido. Era ao senhor. 
-Era a mim. No me custou barato; mas que me importava isso, se era para ela? 
Oliveira continuou a examinar o alfinete. De repente exclamou. 
-Ah! 
-Que ? 
-Lembra-me ainda outra circunstncia, disse Oliveira. Eu j sabia que este alfinete tinha 
sido comprado pelo senhor. 
-Disse-lho ela? 
-No, minha irm. Um dia em que aqui estivemos, minha irm viu este alfinete no peito 
de D. Carlota, e gabou-o muito. Ela disse-lhe ento que o senhor lho dera um dia em que 
foram  Rua dos Ourives, e ela ficara encantada com esta jia... Se soubesse como eu 
praguejei nessa ocasio contra o senhor! 
-No lhe parece muito bonito? 
-Oh! lindssimo! 
-Ambos ns gostvamos muito dele. Pobre Carlota! Nem por isso deixava de amar a 
simplicidade. A simplicidade era o seu principal dote; este alfinete, de que tanto gostava, 
s o ps duas vezes, creio eu. Um dia altercamos por causa disso; mas, j se v, 
altercao de namorados. Eu disse-lhe que era melhor no comprar jias, se ela as no 
havia de trazer, e acrescentei, brincando, que me daria muito gosto, se mostrasse que 
tinha bens de fortuna. Gracejos, gracejos, que ela ouvia a rir e acabvamos ambos 
alegres... Pobre Carlota! 
Durante este tempo, Oliveira contemplava e admirava o alfinete, com o corao 
palpitante, como se tivesse ali um pedao do corpo que se fora. Cosme olhava 
atentamente para ele. Seus olhos faiscavam s vezes; outras vezes pareciam apagados e 
sombrios. Seriam cimes pstumos? O corao do vivo adivinharia o amor culpado, 
ainda que respeitoso, do amigo? 
Oliveira surpreendeu o olhar do infeliz Cosme e prontamente lhe entregou o alfinete. 
-Ela queria muito  sua irm, disse o desventurado vivo depois de alguns instantes de 
silncio. 
-Oh! muito! 
-Conversvamos muita vez a respeito dela... Tinham a mesma idade, penso eu? 
-D. Carlota era mais moa dois meses.
-Pode-se dizer que era a mesma idade. s vezes pareciam-se duas crianas. Quantas 
vezes ralhei graciosamente com ambas; riam-se e zombavam de mim. Se soubesse com 
que satisfao as via brincar! Nem por isso era Carlota menos grave, e sua irm, tambm, 
quando convinha que o fossem. 
O infeliz Cosme continuou assim a elogiar ainda uma vez os dotes da finada esposa, com 
a diferena que, desta vez, acompanhava o discurso com movimentos rpidos do alfinete 
que tinha na mo. Um raio de sol poente vinha brincar na pedra preciosa, de onde 

Oliveira quase no podia arrancar os olhos. Com o movimento que lhe dava a mo de 
Cosme, parecia a Oliveira que o alfinete era uma coisa viva, e que parte da alma de 
Carlota ali brincava e sorria para ele. 
O infeliz Cosme interrompeu os louvores que fazia  amada do seu corao e olhou 
tambm para o alfinete.

- realmente bonito! disse ele.
Oliveira olhava para o alfinete, mas via mais do que ele, via a moa; no admira pois que
respondesse maquinalmente:
-Oh! divino!
- pena que tenha este defeito...
-No vale nada, acudiu Oliveira.
A conversa prosseguiu ainda algum tempo a respeito do alfinete e das virtudes da finada
Carlota. A noite veio interromper essas doces efuses do corao de ambos. Cosme
anunciou que provavelmente saa no dia seguinte para recomear a lida, mas j sem o
nimo que tivera nos trs anos anteriores.
-Todos ns, disse ele, ainda os que no somos poetas, precisamos de uma musa.
Separaram-se pouco depois.
O infeliz Cosme no quis que o amigo fosse sem levar uma lembrana da pessoa a quem
tanto estimara, e que o prezava deveras.
-Tome l, disse o infeliz Cosme, tome esta flor de grinalda com que ela se casou; leve
esta outra para sua irm.
Oliveira quis beijar as mos do amigo. Cosme recebeu-o nos braos.
-Nenhuma lembrana dei ainda a ningum, observou o vivo depois de o apertar nos
braos; nem sei se algum receber tanto, como estas que lhe acabo de dar. Eu sei
distinguir os grandes amigos dos amigos comuns.
VI 

Oliveira saiu da casa de Cosme com a alegria de um homem que acabasse de tirar a 
sorte grande. De quando em quando tirava as duas flores secas, quase desfeitas, metidas 
numa caixinha, e olhava para elas e tinha mpetos de as beijar. 

-Oh! posso faz-lo! exclamava ele consigo. No me punge nenhum remorso. Saudades,
sim, e muitas, mas respeitosas como foi o meu amor.
Depois:
-Infeliz Cosme! Como ele a ama! Que corao de ouro! Para aquele homem j no h
gozos na terra. Ainda que no fosse seu amigo de longo tempo, a afeio que ele ainda
hoje tem  sua pobre esposa era bastante para que o adorasse. Bem haja o cu que me
poupou um remorso!
No meio destas e outras reflexes Oliveira chegou  casa. Ento beijou  vontade as
flores da grinalda de Carlota, e acaso verteu sobre elas uma lgrima; depois do qu, foi
levar  irm a flor que lhe pertencia.
Nessa noite teve sonhos de ouro.
No dia seguinte estava a almoar quando recebeu uma carta de Cosme. Abriu-a com a
sofreguido prpria de quem se achava ligado quele homem por tantos laos.
-No vem s a carta, disse o escravo.
-Que h mais?
-Esta caixinha.
Oliveira leu a carta.
A carta dizia:
Meu bom e leal amigo,
Vi ontem o entusiasmo que lhe causou o alfinete que desejava dar  sua irm e que eu
tive a fortuna de comprar primeiro.
Tanta afeio lhe devo que no posso nem quero priv-lo do prazer de oferecer essa jia
 sua interessante irm.

Apesar das circunstncias em que ela se acha nas minhas mos, refleti, e entendi que
devo obedecer aos desejo de Carlota.
Cedo-lhe a jia, no pelo custo, mas com dez por cento de diferena. No v imaginar
que lhe fao um obsquio: o abatimento  justo.
Seu infeliz amigo
Cosme.
Oliveira leu a carta trs ou quatro vezes. H fundadas razes para crer que no almoou
nesse dia.


Ncleo de Pesquisas em Informtica, Literatura e Lingstica 


